Com apoio do programa Megafone Ativismo, voltado a ações de justiça climática na Amazônia Legal, por meio do Miniapoio Megafone 2025 – Educação Climática, o Coletivo Pererê inicia, em agosto de 2025, o Projeto Igarapé do Saci.
Com o tema “Escuta Comunitária e Crise Climática”, o primeiro desdobramento do projeto consistiu no levantamento e no mapeamento afetivo-ambiental do trecho do igarapé que circunda a sede do Coletivo, a partir das memórias e experiências dos moradores mais antigos da comunidade. A ação buscou fortalecer vínculos intergeracionais, estimular a expressão artística e ampliar a reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas em contextos urbanos periféricos.
A partir desse processo, o igarapé foi nomeado simbolicamente como “Igarapé do Saci”, em um gesto pedagógico, político e cultural que reconhece o curso d’água como parte viva do território e de sua memória coletiva. O nome faz referência à trajetória do Coletivo e à figura do Saci-Pererê, associada à astúcia, resistência e proteção da floresta, reforçando a relação entre imaginário popular e cuidado ambiental.
A ação foi acompanhada da criação de uma placa artística, desenvolvida em parceria com o grafiteiro Biels, do coletivo Perifa Amazônia, e instalada no entorno do igarapé com a participação de crianças da comunidade. O processo articulou arte, educação e território, promovendo um primeiro gesto de reconhecimento e pertencimento em relação ao espaço.
Em continuidade, foram realizadas rodas de conversa e entrevistas com moradoras do bairro Colônia Santo Antônio, que compartilharam memórias sobre o igarapé, suas transformações ao longo do tempo e os impactos de alagamentos, poluição e ausência de infraestrutura urbana. Esses relatos foram registrados em vídeo e integraram a produção do curta-documentário do projeto, além de compor o acervo audiovisual em construção.
A partir dessas narrativas, foram realizadas oficinas com crianças e adolescentes da comunidade. Na oficina de escuta e produção de desenhos, os participantes criaram mapas afetivo-ambientais do território, resultando na exposição “Auto-Eco-Organização”, composta por trabalhos que apresentam o território como um sistema vivo de relações entre comunidade, igarapé e cidade, evidenciando também desafios como saneamento precário, assoreamento e enchentes.
Em outra frente, foi realizada uma oficina de introdução ao slam e à poesia falada, conduzida por integrantes do Coletivo Pererê, na qual os jovens foram apresentados à história e às práticas do slam como forma de expressão cultural e política das periferias. A partir das narrativas do território, os participantes produziram versos autorais, articulando experiência vivida e criação poética.
Também foi realizada uma oficina de grafite e intervenção urbana com o Coletivo Perifa Amazônia e artistas convidados, que introduziu referências da cultura Hip Hop na Amazônia e promoveu uma criação coletiva com as crianças. A atividade culminou em uma intervenção na Toca do Saci, transformando o espaço em uma instalação artística comunitária.
O conjunto dessas ações resultou na exposição “Rios de Memória: Arte, Escuta e Território no Igarapé do Saci”, realizada na sede do Coletivo Pererê, reunindo fotografias, vídeos e produções artísticas desenvolvidas ao longo do processo. A mostra funcionou como espaço de reconhecimento e circulação das narrativas produzidas, fortalecendo os vínculos entre comunidade e território.
Paralelamente, foi produzido o curta-documentário “Igarapé do Saci: memórias do Colônia Santo Antônio”, que reúne entrevistas com moradoras e registros das atividades do projeto, articulando memórias locais e questões socioambientais do território. O projeto contou com a parceria do Programa de Mestrado em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos da UEA (PROFÁGUA/UEA), aproximando saberes comunitários e conhecimentos técnicos sobre a crise climática em contextos urbanos periféricos.
A partir dessa interlocução, foi criada também a série de vídeos curtos “Saberes das Águas: universidade e comunidade em diálogo”, publicada nas redes do Coletivo, ampliando o debate sobre gestão das águas, justiça ambiental e produção compartilhada de conhecimento.
O curta foi exibido na comunidade durante o Festival do Saci, em dezembro de 2025, marcando o encerramento das atividades do Coletivo no ano, com apoio da Arena Jesus Me Deu, que cedeu o espaço para a exibição.
A partir das produções realizadas ao longo desse processo, iniciamos a construção de um acervo comunitário, que hoje compõem cartografias afetivas, exposições e produções audiovisuais que ampliam o debate sobre a crise climática nas periferias urbanas. Mais do que reunir informações, o acervo se configura como uma ferramenta política voltada à produção de memória, à afirmação da identidade coletiva e ao fortalecimento da autonomia da comunidade.
Apoio:
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Arena Jesus me deu